Um jovem porteiro de uma escola de Boa Vista recebeu um convite para ser modelo na China. A proposta parecia tentadora, mas foi após uma palestra do pelo projeto Educar é Prevenir, da Assembleia Legislativa de Roraima (ALE-RR), que ele percebeu que aquilo poderia ser uma armadilha para o tráfico humano.

Este foi um dos 20 casos de possível aliciamento identificados no ambiente escolar durante a execução do projeto. O tráfico de pessoas é o terceiro negócio ilícito mais rentável no mundo depois das drogas e das armas. Um dos artifícios dos criminosos são as falsas promessas de um emprego ou viagem ao exterior. E é para alertar a comunidade escolar sobre este crime que o projeto Educar é Prevenir é realizado.

Ao longo de dois anos, a ação visitou 33 escolas na capital e no interior, somando 4.500 alunos e 1.500 profissionais de educação treinados. A iniciativa promove uma capacitação de professores e outros profissionais da escola, que por sua vez desenvolvem o assunto com os alunos. E foi uma capacitação destas que acendeu o alerta ao jovem, de que aquela proposta apresentava riscos.

“Ele estava sendo aliciado supostamente para ser modelo, por ser um rapaz bonito. Eles não vão direto na pessoa, mas estudam e querem pegar o ponto vulnerável. Geralmente, a parte econômica”, relatou o coordenador do projeto Educar é Prevenir, Glauber Batista sobre o jovem que por pouco não caiu em uma armadilha.

Segundo o coordenador, o jovem desabafou essa situação durante uma capacitação aos profissionais de educação, neste ano. “Graças a nossa intervenção na escola, que ele percebeu. Às vezes a pessoa não enxerga isso, por conta da vulnerabilidade”, disse.

Depois das palestras, quando um aluno ou profissional de educação procura a equipe, ali mesmo ocorre o primeiro acolhimento.  No caso de menores de idade, a equipe notifica a direção da escola, e encaminha a situação para o Conselho Tutelar. “Somos uma porta para o sistema de segurança, porque às vezes, a vítima fica perdida de onde pode recorrer”, explicou. Das 20 pessoas que procuraram ajuda pelo projeto, 10 foram encaminhadas para atendimento pelo Núcleo de Núcleo de Promoção, Prevenção e Atendimento às Vítimas de Tráfico de Pessoas, da ALE-RR.

O projeto Educar É Prevenir encerrou os trabalhos neste ano, pois acompanha o calendário escolar. Mas a equipe já está planejando as ações para o próximo ano. A iniciativa é desenvolvida pelo Núcleo de Promoção, Prevenção e Atendimento às Mulheres Vítimas de Tráfico de Pessoas, da Procuradoria Especial da Mulher (PEM), da (ALE-RR).

Abuso sexual e aliciamento

De acordo com o coordenador, as ocorrências mais recorrentes no ambiente escolar são de abuso sexual e o aliciamento. Ele relata que, segundo professores, há casos de pessoas que se matriculam nas escolas com a intenção de atrair vítimas. “Graças ao nosso projeto, estamos com esse cuidado dentro das escolas, para alertar e ter esse olhar diferenciado através do projeto. Quando há visibilidade destas palestras, as pessoas abrem os olhos nas escolas”, explicou.

A Região Norte é a que possui o maior número de rotas de tráfico de pessoas no Brasil, 76 do total de 241, conforme os dados da Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins de Exploração Sexual Comercial no Brasil (Pestraf).

Ainda de acordo com a pesquisa, a rota de tráfico internacional de pessoas passa por Roraima, com destino principal a Venezuela, posteriormente, Espanha e Holanda.

Da mesma forma, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), houve um aumento de 160 para 404 pontos vulneráveis de exploração sexual infantojuvenil nas rodovias brasileiras da Região Norte, de 2017 a 2018.

Como denunciar

As denúncias podem ser feitas diretamente ao disque 100 ou 180. As vítimas podem procurar o atendimento na sede do Núcleo, na sala 208, localizada na avenida Ville Roy, 5717, Centro, na sala 208. Ou ligar para o telefone (95) 3624-8473.

Texto: Vanessa Brito

Foto: SupCom ALE-RR